quinta-feira, 28 de março de 2013

"JESUS JÁ ERA"

Por Carlos Gilberto Triel

Era uma vez um bíblia pirata, que vivia a dizer para os fragilizados que Deus quer que todos sejam prósperos e ricos. E, aí está o pulo do gato, digo, o roubo do rato; pois mentes anestesiadas gostam muito de ouvir que Deus não é um Deus de varejo,  merreca pouca é bobagem, e quando não, coisa do Capeta.

E que esse Deus de poder havia operado riquezas no atacado, e com ardilosa astucia, disse que ele mesmo havia pulado fora da miséria absoluta, e sem lenço para o pudor e, sem documento para o imposto de renda, enumerava as fortunas que adquirira graças aos milagres do Deus da fartura.

Ora, quando se ouvia o bíblia pirata, de retórica inflamada a falar de Deus como se Deus fosse um investimento na bolsa, as pessoas da farinha pouca, meu pirão primeiro, se jubilavam e falavam uma com as outras: Vamos à casa de Deus, porque Deus quer nos fazer homens ricos e compradores.

E que Deus tinha um plano de muita gastança para cada abençoado, e que as consciências se despojassem dos escrúpulos, porque o Deus de vitórias não gostava de perdedores. Do jovem ao ancião, todos enlouqueceram! Mas, não sem antes descriminalizar o aborto para se evitar uma vida de sofrimento.

E a casa de Deus encheu-se de tanta gente que foi preciso construir mais casas, cada uma maior do que a outra. E o caboclo ficou famoso; o seu prestígio alcançou o Congresso e, fez de Deus o seu Laranja e, comprou concessões de Rádio e TV para falar dum Deus mascarado, justiceiro, que em vez da misericórdia, pisava era na cabeça dos seus inimigos.

E então políticos sem cor religiosa e no pior estágio da degradação moral aderiram ao vigarista e, parte dessa fauna percebendo a semelhança das espécies passou a professar a exploração da fé como sórdida sobrevivência nas urnas. E o modelo seguiu gerando filhotes tristes, esquizofrênicos e suicidas.

Certo dia, perguntaram ao calhorda que falava do Deus das maravilhas, onde entrava o amor e a caridade de Jesus nessa prosperidade toda?

O bíblia pirata não titubeou começou a dizer que na primeira etapa do jogo entre o céu e o inferno, Jesus fez parte dos planos de Deus, porque naqueles tempos obscuros ninguém se preocupava com o consumo, então era preciso falar do amor de Jesus para sacramentar entre as pessoas a importância de Deus.

Mas que agora não, quem amou, amou; quem não amou, não ama mais. Agora Deus quer que usem e abusem dos bens e dos bondosos. Os seus abençoados herdarão e explorarão a terra até o último grão de bico, mas, quando lhe foi perguntado quem arará os campos, o bíblia pirata, respondeu: Adivinhem?

E de braços erguidos e com olhos marejados falou forte, torto e errado: Deus trouxe meus pastores, bispos e cardeais para completar o trabalho de Jesus, que ficou ultrapassado na vitória sobre os inimigos; pregar um mundo de riqueza, pregar a obediência ampla, geral e irrestrita; e pregar, e pregar...

Foi quando um dos seus pulhas chegou à brilhante conclusão de que outros nomes de comprovada obediência são mais lucrativos à Igreja Dos Bíblias Piratas e, que evitassem falar de Jesus, essa tal de caridade e almoço grátis são um pé no saco na relação custo benefício para esses novos tempos.


E assim, aos poucos se está a cristianizar o pai Abraão, esse sim um patriarca a altura duma gestão eclesiástica moderna, afinal, quem melhor do que Abraão para simbolizar a fé e a obediência cega aos mandamentos de Deus? Que o diga, o garoto Isaque, não fosse o Anjo chegar a tempo, ah coitado...

Abraão, esse sim é o Cara.

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